Bioncinha





Um caminho contra a fantasia da moda


O que é transmutação têxtil? Porque não upcycling? Já tá inventando muita moda… Sim estou, venho por meio deste texto trazer um pouco do meu lugar de fala, das minhas reflexões a público, para que dessa vez não seja lembrada como terceiros bem entendem e sim como desejo e almejo ser lembrada.

Para quem não me conhece, sou a Bioncinha do Brasil, tenho vinte e cinco anos e já tenho uma história para contar com a Moda. Quando conclui o ensino médio fui direto para o SENAI estudar técnicas do vestuário o que não durou muito tempo, pois em menos de um ano consegui ver e sentir a perversidade da máquina mortífera que chamamos de indústria. Ao trancar meu curso fiquei mais ou menos um ano sem estudar e depois comecei a estudar Técnicas de palco na SP escola de teatro. Onde tive a oportunidade de cruzar com muitas personalidades que seguem comigo na caminhada e a possibilidade de trabalhar com figurino, de lá me mudei para o Rio de Janeiro, onde morei por quase três anos e na retomada para São Paulo foi que a moda me agarrou sem perspectiva de quando me largaria.

Mas Bioncinha como assim a moda te agarrou? Foi assim, durante a minha mudança de Rio para São Paulo, ume amigue e estilista da Menine Costure, que se chama Hellena Kuasne me convidou para desenvolver um projeto de bordado, a ideia dela era fazer um kimono frente e verso com um lado todo bordado, nessa época eu já estava estudando os vudus Haitianos, e um desses panteões me chamou atenção Lasirene, uma entidade que tenho seus sincretismos com Yemanjá e Santa Bárbara representada pela imagem de uma sereia, foram três meses de muitas pesquisas e linha azul sobre o tecido rosa onde desenvolvi um projeto artístico chamado Sereyas. Com a figura de Lasirene espelhada e preenchendo as cinco partes da modelagem com Legba e Dambalá panteões representados pela imagem da cobra e com sincretismo respectivo de Exu e Oxumaré. Uma peça que ficou com um resultado monumental vendida por mediação de Cintia Marcelle para o artista Jamaicano Dave McKenzie. Que trouxe consigo a repercussão necessária para essa retoma para minha cidade de origem.

Nesse processo de mudança fiquei quase um semestre sem casa, pulando de casa em casa de amigues, até que fui parar na casa uma amiga produtora chamada Mariana Canafístula, no bairro do Bom Retiro bem perto da casa do povo. Até que uma manhã de novembro, voltando da padaria eu encontro com Rafa Kennedy na rua e lhe perguntei:
  • Mana, a Vicenta tá aí na casa do povo?

Rafa me disse que sim, me encaminhou até a Vicenta Perrotta, que estava trabalhando, nesse dia lembro que faltava exatamente uma semana para o desfile BRASIL PAIS CAMPEÃO MUNDIAL DE TRAVESTIS na Casa de Criadores. Perguntei como estava a produção do desfile, lembro da Vicenta exaurida fazendo um zilhão de coisas ao mesmo tempo, e ofereci a minha ajuda, e ela respondeu que precisava fazer a Ala das campeãs ainda, e que eu podia ajudar fazendo três vestidos. A partir daquele momento todos os dias pela manhã produzia na casa do povo e depois ia trabalhar com orientação de público no MIS. Ali tive a oportunidade de conhecer melhor as pessoas da rede transmoras, e a horna de costurar ao lado de Xãtana Xãtara, Dyony criadora da Trash, e outras manas com Cuini Cudaline, Xád Sassará, entre outras honras como participar de um desfile dirigido por Manauara Clasdestina, e conhecer varies outres gates incríveis que formavam esse fronte de mais de duzentas pessoas trans envolvidas em um desfile sem patrocínio.

Dali em diante me aproximei de Xád Sassará com o foco de costurar. Produzimos ideias grandiosas como a Kimona e a transpyrifikah, que surge junto com o diálogo de sobre transmutação, que habita um campo etéreo muito especial no meu imaginário. Até que em março desse ano veio a COVID-19 e todo um processo de reformulação de tudo se iniciou. Nessa época comecei a despejar toda a minha ansiedade e insegurança na máquina de costura e criar muitas peças em um curto período de tempo. Uma delas foi o figurino para um filme produzido por Angeli Cristie e Mariana Canafístula chamado DATURA.

Durante esse processo conversava muito por ligação com Xád e Vicenta. Espaços de diálogos muito opostos e ao mesmo tempo complementares. A transmutação têxtil se fazia cada dia mais presente em minha vida.

Até que entre junho e julho Vicenta me convida para fazer parte de um projeto desenvolvido pela rede Transmoras, a propostas era fazer uma coleção de blusas-cachecol, uma técnica dela, que foi ensinada de forma remota para sete costureiras travesti para fazer esse babado acontecer. Nessa época lembro já estar esgotada do termo upcycling que é um termo que nunca acolheu corpos transvestigeneres, que da mesma forma que pode ser muita coisa, pode ser uma caixinha de customização escrita em inglês, assim como podemos ver em suas hashtags pelas redes.

Foi nesse processo que começou a me cair uma ficha, de que nós pessoas trans que trabalhamos com reutilização de tecido não trabalhamos com customização, nós desenvolvemos tecnologias sobre o tecido, para que a roupa consiga acolher as nossas corpas, e outros corpas: como corpos gordos e portadores de deficiência. Lembro de nessa mesma época conhecer e desenvolver meditações de chama violeta e de sonhar com uma fogueira violeta, o que hoje percebo que já era uma anunciação para que eu, enquanto escritora documentasse. E pouco antes do lançamento do projeto Semente na Use VP, a Vicenta me passa a missão de escrever MANIFESTO TRANSMUTAÇÃO TÊXTIL: TECNOLOGIA TRAVESTI.

E desde então venho defendendo a transmutação e quem chega até mim com interesse de extrair informações sobre upcycling. Transmutação é um convite de estudos de técnicas que atuam no campo de desconhecido, e como digo no manifesto somos criadoras de milagres! E certas informações são secretas. Vejo que as pessoas não percebem que a moda antes de vender roupas, vende identidades, e para pessoas trans identidade é inegociável. Somos nosso próprio templo e tirades de loucas o tempo todo. Por essas e outras que essa bandeira de superfícies do upcycling não cola.

Quando falo de transmutação têxtil, falo de valores transvestigeneres, e arrisco em dizer que ser preta e travesti seja um dos gêneros mais caros da sociedade brasileira, nossa expectativa de vida é de trinta e cinco anos, somos as que mais morrem mesmo com a COVID-19 e maioria de nós vive de prostituição. O que posso te dizer é que é bem caro ser quem sou, e se quiser alguma informação técnica do meu trabalho, você pessoa cis pode começar hipotecando a sua vida ou vendendo a sua alma.